quinta-feira, 2 de junho de 2011

No meio dessa multidão eu consigo me encontrar sozinho. Sob esse sol, que também solitário, insisti em deixar ainda mais degradante minha situação. A sola do meu velho all star não serve para nada mais, nem para proteger meus pés desse calor acumulando nesse piche que me queima agora. A roupa que me cobre está no meu corpo a mais de uma semana. Ainda tem o cheiro da ultima vez que a encontrei. Talvez por que eu não tenha ido para casa para tomar um banho. Mas também um mero banho é insuficiente para livrar meu corpo da sujeira que me forma. Na verdade eu não tenho casa. Nunca tive. Minha família nunca me pertenceu, ela pode ter sido mais desses garis que limpam a sujeira interminável dessa cidade a ser minha. A comida que tem me alimentado é uma comida dedicada a santos tão puros quanto à puta que me olha e me deseja, querendo uma foda digna diante dos velhos pançudos que pagam pelos seus serviços. A minha vida tem sido um teatro macabro dirigido pelo cão diabólico que bolou toda essa estrutura. Esse cão, cada dia me dá um personagem novo para ser colocado em ação, e são esses personagens que tem me dado essa sobrevida. Cada dia uma cara novo em uma situação que se repete. O que muda alem do meu personagem são os outros integrantes, sempre exigindo uma melhor atuação da minha parte. O que me deixa mais puto é saber que eles também estão interpretando, mas os miseráveis me exigem de tal maneira que é realmente acreditável que aquilo que eles apresentam é verdadeiro. Agora mesmo estou cá eu novamente preste a me colocar no palco da vida. Ser mais uma vez o filho da puta que parido por um acaso só serve para gerar o conflito na vida dos demais. Mas sabe que eles até que gostam? Eles fingem estar indignados, mas no fim das contas estão alegres por terem mais uma história para integrar seu repertório. Não sei por que insisto em deixa-los me usar em suas sociais. Pequenas reuniões a onde eles podem por para fora seus instintos primitivos de sexo e violência, mas tudo com muita classe, é claro. Mas são todos cômicos fingidores, apenas palhaços que sem maquiagem deixam de existir. Como esse cara que passa na minha frente, ele está de paletó e fala freneticamente ao celular, mas tirar essas coisas dele é como tirar a maquiagem de um palhaço, é ta na hora de fechar o circo...

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