Eu só preciso despejar algumas coisas que não cabem mais dentro de mim. Exportar para fora aquilo que se tornou grande demais para que eu carregasse no peito. Eu ainda não entendi como que foi parar ali, era pra ter sido só de passagem e era para ter passado em outras partes, mas não a onde está. Por que está em um lugar inalcançável, e se protegeu dentro de uma carapaça espinhosa que tem perfurado meu ser em todos os simples gestos dos seus olhos.
Olhos que por sua breve inocência me olhavam com desprezo, algo natural vindo de alguém que procura a perfeição. Pena que não me encaixei em sua definição de perfeição, o seu perfeito é algo que você só vê em corpos que infelizmente não me pertencem.
Sinto muito se na minha Via Crúcis do corpo não consegui chegar ao calvário da sua perfeição, é que simplesmente não fazia parte de mim, ser o que você buscava, em minhas células estava escrito o contrário. E você nem deu uma chance de mostrar os meus outros códigos, que poderiam ser compatíveis com os seus.
Enquanto você não encontrava sua perfeição usou de mim. E enquanto você tinha a mim aproveitou para se moldar em cima do que sou, foi tirando de mim detalhes que te faltavam, e assim se construindo perfeitamente a minha imagem – que não condizia com a sua perfeição.
Mesmo você estando pronto ainda não se sentia capaz de se atirar em cima do que pra ti é perfeito. Talvez pela minha natureza sádica eu ainda te ajudei a se firmar mais. Mesmo machucado pela carapaça protetora daquilo que havia dentro de mim, eu fui capaz de te conceber perfeito para sua perfeição. Como um cordeiro eu te preparei para o sacrifício. Só que quem mais se sacrificou fui eu.
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