quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Finalmente Liberdade

Naquela noite chuvosa, o frio do cálido mar ao alcance dos seus olhos se refletia por todo o seu corpo. Ela buscava pela velha presença que pudesse a esquentar de novo, o que não seria possível. Pelo menos não na nossa dimensão. Ele há algum tempo já havia partido e por agora ela se encontrava sozinha, do mesmo modo que já houvera sido. Assim, nesse momento o frio continuaria a existir naquele ambiente, continuaria a existir e não havia nada que momentaneamente ela quisesse fazer para mudar isso, o frio em sua crença só deveria acabar quando ela absolvesse o calor do corpo dele. Mas o corpo dele já a muito não havia calor.
Foi em um turbilhão de sentimentos que os dois se encontraram. O líder desses sentimentos sempre foi à liberdade. A rainha mor em fazer a raça humana perder a sanidade. Só aos poucos os dois foram se dando conta das coisas que eram capazes de fazer para lutar pela liberdade. Liberdade, academicamente, pode dizer que se trata de um processo construído de decisão. Mas na vida real ela se trata de sentir algo que você nunca vai sentir algo que jamais será realmente concreto em sua vida, sempre será na verdade um processo contínuo da busca da falta que não se preenche.
Eles se envolveram nesse momento de busca efusiva. Um momento em que a mínima faísca seria capaz de gerar o maior e mais quente dos incêndios dentro deles, e após cada incêndio ficariam tentando ressurgir das cinzas. Se conseguissem fazer isso passariam a se ver como fênix e assim achariam se como pássaros no direito de voar começando uma nova busca.
Um casal que fora construído nessas bases tinha sempre o compromisso de que quando um conseguisse sua finalmente finda liberdade levaria o outro junto. Estavam, portanto atrelados um ao outro, no que dizia a respeito do que sentiam seria para sempre assim, juntos até a máxima liberdade. A liberdade que seria única e finda.
A vida juntos seguia, com mais intensidade à medida que as liberdades iam passando pelo caminho e ficando no mesmo. A cada novo começo sempre havia também a renovação dos votos de fidelidade de um para com o outro, reafirmando o compromisso de que sempre deveriam estar juntos para serem livres. Eternamente livres, numa liberdade finda.
Mas cadê que essa liberdade chegava? Sempre era deixado para trás um sentimento de que poderia ter sido mas não foi. Era uma busca circular em um mundo que não parava de girar e criar. Para cada novo dia que se fazia na vida daquele casal eles tinham uma nova possibilidade de uma nova liberdade, e assim saiam de novo atrás. Só que eles já demonstravam sinais de fadiga de tal corrida que jamais terminava.
Ele foi percebendo aos poucos o sentido do que diziam e do que procuravam. Ele parou para refletir sintaticamente no que vinham dizendo e no que vinham procurando. E quanto mais ele pensava ao pé da letra mais ele se aproximava de uma resposta aterrorizantemente brilhante e que poderia ser a resposta definitiva.
Ele precisava ter certeza do que estava pensando para não se confundir e por tudo a perder de novo e então ele pensou também ao pé da letra na relação que eles vinham desenvolvido e no que ela havia se tornado. Ela era uma prisão a duas almas que ansiavam acima de tudo a liberdade. Não experimentar nada que fosse parecido com a dependência de outrem, só que era justamente isso que eles estavam criando para si mesmos.
Para ele não havia mais no que pensar. Havia somente que correr pela última vez atrás da sua liberdade, agora sim uma liberdade finda que o levaria para longe dela e que certamente os colocariam em caminhos diferentes.
Assim ele partiu para sua liberdade. Fechou os olhos e simplesmente deixou que seu corpo sentisse aquela sensação do vento transcorrendo todos os vão que havia em sua massa corporal. O barulho da aproximação que já tinha se tornado como um hino de libertação para ele. A consciência que esvaia aos poucos ia deixando cada vez mais leve seu corpo. Pronto, 11 andares depois ele se encontrava livre. Livre da vida, livre em um fim verdadeiro, livre dela.
Fora muito egoísta em sua atitude, não podemos julgar que talvez sua intenção tenha sido libertá-la dele. Mas ele errou seu objetivo e a transformou em uma prisioneira, ela ficou presa agora na sua falta, no desejo de que era você o tempo todo a liberdade dela e ela não pode ver.
            Passou por um momento de se sentir impotente, pois acreditava que se soubesse antes que a liberdade dela era justamente o paradoxo de se prender a ele ela poderia ter evitado que ele partisse assim para a liberdade que ele supôs ser a definitiva na vida dele. Mas esse sentimento logo passou, assim que ela se deu conta de que estaria ela sendo egoísta, se ele se foi era por que a liberdade dele não estava ao lado dela, ou seja, ele merecia ter a liberdade que tanto desejava, mesmo sendo as custa de prendê-la.
            Ela não tinha mais motivos que lhe dessem graça a vida. Já que acreditava ter perdido a liberdade a que sempre procurou não tinha mais as motivações que a mantinham em estabilidade nessa dimensão.
            Por isso nessa noite fria as partículas em suspensão em seu copo de vinho não eram mais nenhuma das suas corridas lindamente loucas atrás da liberdade. Ela não procurava encontrar ali a finda eternidade do que sempre buscou sim o fim findo de tudo que se há pra terminar.
            Assim de pouco em pouco o frio foi deixando de ser um incômodo e se tornando mais uma realidade aceitável. O mundo foi se tornando menos colorido e ficando mais sedutor com suas poucas luzes em uma variação tonal do preto ao branco. O branco era lindo e ela foi se deixando dominar por ele. Com a certeza de que vivera por um momento sua liberdade, não soubera que era ela a finda que procurava, mas tinha consciência de que era por ela que havia chegado ao fim.





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